Ao fechar os olhos e reviver minha história ainda menino, vejo-me um disciplinado coroinha em dia de missa, sinto-me, também, ruborizado, deve ser a sensação de que seres livres estejam vendo meu opróbrio e aventurando algumas palavras de dó. Sim, me envergonho da candura que me fez subir ao altar do sofismo religioso. Poderia ter minha inocência, me arrastado por aventuras mais voluptuosas. Para não julgar tudo perdido tento acreditar que foi um mal necessário, uma experiência indispensável para me levar ao encorajamento e à liberdade. Por vezes, penso sobre os incentivos que me levaram a paramentar-me com vestes litúrgicas, ajoelhar-me diante do sacrário do Jesus sacramentado e manusear as galhetas de água e vinho para servir aos bonifrates da igreja. Certamente seria a inocência querendo encontrar Deus e se relacionar de modo profundo com ele, mas minha mente, ainda cativa, não se atinava para o que estava acontecendo. Para mim, não havia lucidez naquela ocupação, eu apenas fazia e refazia o que me era disposto, parecia um cão adestrado repetindo comandos na esperança de uma boa recompensa. Pensava: se eu fizer isso, posso encontrar Deus e se ele se agradar de mim poderá me proporcionar coisas boas. Mas isso não aconteceu, se quer o ouvi dizer, “minha graça te basta e mais nada”. Outra coisa que fez soprar em mim a aspiração de coroinha foi a necessidade de conquistar o coração de uma mãe que não me tinha por predileto e sonhava em exibir a uma casta de beatos e beatas um filho padreco. Por vez, também, para provar a mim mesmo, que sofria angústias pelo temor de falar em público, que eu não seria um produto do medo, que não viveria uma vida menosprezada e malograda por causa de uma timidez confusa e, aparentemente, sem nexo. Como coroinha eu teria a oportunidade de lutar contra o que meu terapeuta denominava de fobia social, e um bom início, seria enfrentando os olhares esmorecidos dos fiéis cansados de uma homilia hermeneuticamente vazia, mesmo que eu não emitisse nenhuma palavra.
Fui iniciado nos códigos morais da igreja através dos estudos de catequese. Hoje sei por que repudiava agoniadamente aquelas aulas, é porque minha consciência gritava desesperadamente pela liberdade. Certamente ela queria, apenas, soprar a poeira da religiosidade que cegava meus olhos, impedindo-me de ver a verdade. Se fosse 1212, certamente eu seria mais uma criança prosélita engajada na cruzada das crianças inocentes, de infância roubada, logradas pelo fascínio de uma retórica piedosa e sofista dos homens maus daquela época. Agora posso ver minha infância lançada no convés de um navio de estultos “mercadores”, posso asseverar que fui um menino das “cruzadas”, iludido pela mentira. Minha mente de criança era uma terra virgem e bem preparada, tudo que ali fosse semeado certamente prosperaria. Não nasci cristão, incutiram o cristianismo em mim. Fui um produto do meio em que vivi, como Amala e Kamala, as meninas lobas encontradas numa alcatéia. Caminhavam de quatro e eram incapazes de se manter-se em pé, se alimentavam de carne crua e podre. Comiam e bebiam como animais. É isto que fizeram comigo quando ainda inocente e indigente de idéias e sonhos.
Não me mostraram o mundo como ele é, mas como deveria ser. Não me falaram de sua diversidade cultural, das suas múltiplas possibilidade, não queriam que eu visse sua dimensão e fizesse, eu mesmo, minhas próprias escolhas, me mostraram apenas seus quintais escassos e mesquinhos. Foram como lobos, filhos de lobos, incapazes de se colocarem em pé para se libertarem dessa natureza limitada.
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